Written by: Feminismo Raiz

“Quem te ensinou a transar?”

Como a pornografia e a pornificação da cultura influenciam a maneira como lidamos com as relações íntimas numa sociedade patriarcal

Inicio este artigo com as seguintes questões: “Quais você acha que são as influências na normalização e padronização da violência nas relações íntimas, com especial foco nas relações heterossexuais? Por que, com o passar dos anos, os níveis de violência dentro das relações entre quatro paredes se tornam cada vez maiores e mais ‘aceitáveis’, ao ponto de já termos canções muito populares sobre ‘socos na costela e enforcamentos?

Como é de ciência, a sexualidade humana é indiscutivelmente complexa e influenciada por diversos fatores, tais a biologia, a constituição psíquica, as experiências pessoais, os traumas e, em especial, a cultura. Não há nada linear ou de fácil associação dentro da sexualidade humana, tópico estudado tanto nas áreas de saúde objetiva (medicina) como nas de conhecimento abstrato ou psíquico sobre a experiência humana psicologia, psicanálise, filosofia e demais outras).

Por conseguinte, a forma como vivenciamos a nossa sexualidade não se dá de maneira “original”, mas sim altamente influenciada por diversos fatores externos e internos. Nas sociedades patriarcais, o sexo e a sexualidade são “ativos” da classe masculina, pois é ela quem legisla e constrói o discurso considerado hegemônico sobre os mesmos. Podemos perceber isso, não apenas através do fato de que a maioria dos Estados possui um percentual maior de homens no poder e na responsabilidade de passar, negar ou alterar leis que dizem respeito ao corpo feminino, à reprodução e aos direitos sexuais, como também o fato de que até mesmo a narrativa médica da fecundação, até poucos anos, ilustrava o óvulo (célula reprodutiva feminina), como “passivo” face ao espermatozoide. O discurso hegemônico sobre o sexo e a sexualidade nas sociedades patriarcais, sempre tornou mulheres em coadjuvantes, apenas responsáveis por “ceder” e “satisfazer” outrem.

Vindo daí, algumas declarações polêmicas que já fiz, como a afirmação de que não há sexualidade feminina dentro do Patriarcado e que vivemos apenas uma emulação do que seria a sexualidade pensada para nós e os desejos “autorizados” num contexto de reprodução da estrutura, revitimização e tentativa de erotização do trauma. Erotizamos o trauma, pela noção inalienável de que não podemos fugir da violência sexual masculina, assim como muitas de nós teve enquanto primeiro contato sexual, a violência masculina. Então, reproduzo aqui a questão feita por uma mulher em uma rede social: “quem te ensinou a transar”?

Yasmin Morais

A verdade dolorosa, é que muitas mulheres o “aprenderam” em um contexto de abusos e violências, principalmente quando analisamos as estatísticas de violência sexual no Brasil e em outros países da América do Sul. Em um mundo no qual somos bombardeadas com a noção de que somos, sim, vadias, sujas, imprestáveis, buracos e toda a sorte de impropérios que crescemos a ouvir nas músicas, às vezes em nossos lares, nas escolas, através do acesso à pornografia e, principalmente, da boca dos homens, surpreende que o aceitemos? Que o aplaudamos e convencemos à nós mesmas de que esse é mesmo o tratamento que merecemos? Principalmente quando cometemos a heresia de sermos mulheres independentes fora de casa?

O sexo é, também, um termómetro de como se estruturam as relações humanas no escopo de uma sociedade. Em um mundo no qual mulheres são privadas de parte considerável da sua autonomia, não surpreende que algumas se sintam “culpadas” pela sua independência e autoridade. Desejando, assim, retornar àquilo que “parece o normal ou o certo a se fazer”. Por isso, movimentos como as jovens brancas classe média no Tik Tok que estavam abandonando os seus empregos para serem as “namoradas de dentro de casa” para os seus parceiros com boas condições financeiras não surpreende. Porque, por mais “emancipadas” que possamos parecer, todas nós fomos socializadas como mulheres numa sociedade patriarcal e sabemos que o “certo” (dentro da estrutura) definitivamente não é a independência, seja sexual ou social.

Acrescido a isso, há também o avanço da indústria pornográfica, que ensina não apenas as mulheres como também aos homens quais são as “boas maneiras” dentro das relações sexuais.

Mostre-me uma atrocidade cometida contra as mulheres e eu mostro a você este mesmo ato erotizado na pornografia. […] A pornografia participa do erotismo de seu público porque cria um objeto sexual acessível, onde a sexualidade masculina significa posse e consumo e a sexualidade feminina se resume em ser consumida e possuída.

Catherine A. Mac-Kinnon

Ensina, sobretudo, aos adolescentes, que por conta da péssima educação sexual e dos tabus religiosos, acabam tendo os seus primeiros contatos com a sexualidade através da pornografia ao invés de seus cuidadores ou da escola. Citando mais uma vez a querida Gail Dines em sua obra Pornoland, quanto mais a pornografia se torna mainstream, mais o conteúdo pornográfico se torna explícito e violento, pois maior se torna a nossa tolerância face ao que é comercializado. A violência contra a mulher se torna motivo de chacotas, excitação alheia e reafirmação social da mentira de que somos, de fato, subalternas.

Numa sociedade patriarcal, somos “descoladas” e “favoritas”, na medida em que permitimos que nossos corpos sejam machucados, amassados, enforcados e esfolados para a satisfação do prazer sádico masculino. E se não gostamos ou nos revoltamos a partir da tomada de consciência, somos conservadoras ou estamos produzindo kink-shaming, porque as melhores estratégias discursivas do opressor sempre foram a chantagem emocional e a inversão de papéis. Principalmente, quando somos adolescentes ou jovens adultas e estamos sedentas pela aprovação masculina. Nossos corpos, dentro desse modelo de relação, são usados para a satisfação de outrem, mas quem se importa com a satisfação das mulheres? Quais são os índices de mulheres heterossexuais sexualmente satisfeitas no Brasil?

E quando dizem “mas há mulheres que gostam disso, a maioria das mulheres gosta e pede” eu respondo “me surpreenderia se elas não gostassem e não pedissem”. Aprendemos que sexo é violência. Aprendemos isso nos abusos sexuais que sofremos na infância, aprendemos isso quando observamos o mundo exterior, aprendemos isso quando somos submetidas pelas primeiras vezes e etc. Aprendemos que esse é o nosso papel e que sim, merecemos esse tratamento. Afinal, é para isso que serve o aliciamento. Para que o indivíduo sequer precise do algoz, para que ele mesmo saiba o que “tem de fazer” e do que “tem de gostar”.

Nós aprendemos a aceitar, suportar e apreciar a violência que nos é infligida. Aprendemos a sustentar as suas marcas como a prova de que somos amadas e “aceitas” por homens ou outras mulheres (porque a influência pornográfica também afeta as relações ginocentradas). Aprendemos a rir disso, a dançar para isso, a compartilhar isso e a transmitir isso às meninas, às adolescentes. E aprendemos, sobretudo, que não podemos nos revoltar. Não podemos odiar o fato de que nossos corpos são vistos como bonecas infláveis por uma parcela da população. Aprendemos a considerar comum que nossos orifícios sirvam apenas para serem “socados” e “esfolados” e “machucados”. Aprendemos a aceitar não sentir prazer, não sermos estimuladas como gostamos e apenas nos adaptarmos ao que há “disponível no mercado”.

Se você é uma adolescente, uma jovem mulher ou uma mulher adulta que chegou até aqui, apenas gostaria de lhe afirmar que você merece ter o seu corpo respeitado, merece ter aquilo que realmente lhe agrada de forma física respeitado e que a violência não é a única coisa que você poderá ter e então tem de se “acostumar”. Você pode sentir ódio, pode sentir revolta e repulsa, não precisa ter relações sexuais por pena e tampouco poupar parceiros medíocres de saberem que são medíocres. Você não precisa aceitar o papel que eles construíram para nós. Você tem autonomia para isso, para compreender se e para encontrar o que lhe faz sentir bem e agradada. Nós não somos bonecas infláveis, somos pessoas.

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Tags:, , , Last modified: 22 de fevereiro de 2023