Written by: Feminismo Raiz

Ser destruída é o novo sexy

Por que a sociedade normaliza o sexo violento?

Nos últimos dias, chegou ao conhecimento público o caso da estudante de enfermagem Livia Gabriele da Silva Matos (19 anos) que durante uma relação sexual com Dimas, jogador da categoria Sub-20 do Corinthians (18 anos), veio a falecer após sofrer uma fissura de cinco centímetros em seu canal vaginal e quatro paradas cardiorrespiratórias. Segundo comunicado oficial, a jovem foi atendida pelo SAMU, porém não resistiu aos danos e faleceu. O caso segue em investigação.

Quando pensamos acerca da concepção das experiências sexuais que vigoram na sociedade, se faz necessário compreender que desde a vitória patriarcal sobre a casta sexual feminina, mulheres têm estado à mercê das concepções masculinas em torno do sexo e da sexualidade.

Ao contrário do que somos incentivados a pensar, as próprias noções de consentimento são turvas em um contexto no qual mulheres são submetidas desde à infância ao processo de socialização feminina (Graham; Zanello; Lerner), ao terrorismo sexual (Graham; Dworkin; Dines), à cultura pornificada (Dworkin; Dines) e às definições culturais e discursivas que apontam para a construção de um imaginário no qual a existência feminina se pauta em “agradar para sobreviver”, para ser contemplada, para ser aceita, para manter-se sã em um mundo no qual somos concebidas como presas.

Neste contexto, no qual a primeira experiência sexual da maioria das mulheres se dá através de algum tipo de aliciamento, exposição, abuso ou violação sexual, aprende-se desde o início que a sexualidade feminina não existe a fim de produzir satisfação ou saúde para mulheres, mas sim para servir enquanto entretenimento e ferramenta de poder para homens. Como exemplo, basta percebermos que boa parte do “entretenimento sexual” se baseia na exploração de corpos femininos ou de corpos masculinos menos favorecidos (negros, imigrantes, pobres e etc) para uma audiência quase que maioritariamente masculina.

Além disso, o discurso cultural, seja ele através de produtos audiovisuais, teatrais, religiosos e familiares, aponta para uma concepção de sexo que subvaloriza estímulos focados no corpo e na fisiologia feminina e idolatra estímulos que tendem a focar nos corpos masculinos. Como exemplo, através de músicas e representações culturais, aprendemos que a mulher “descolada” ou “empoderada”, é aquela que está disponível para ser fodida das maneiras mais degradantes, violentas e específicas que se pode imaginar. Aprende-se que prazer sexual está intimamente relacionado à violência média ou extrema, como socos na costela, enforcamentos e afins.

Mulheres iniciam as suas vidas sexuais já tendo ciência de que o script básico do sexo heterossexual envolve penetração e muita violência, força, virilidade — porque na versão masculina do sexo, somos mesmo apenas um conjunto de buracos. Em uma sociedade feita à imagem e semelhança do desejo hegemônico masculino, não resta espaço para que mulheres questionem se realmente desejam a violência, se desejam ser penetradas, se desejam ocupar posições de passividade e etc. Nascemos e aprendemos que a nossa função primordial é se tornar um buraco sem nome.

Questionar a sexualidade nunca foi tão político em uma sociedade na qual mulheres estão sofrendo lacerações de cinco centímetros em suas vaginas e ainda há quem considere uma “consequência normal” do ato sexual. Você deseja apanhar? Você deseja ser penetrada em todas as relações sexuais? Você realmente sente que gosta e precisa disso? Você já considerou um questionamento profundo e respeitoso sobre a sua própria sexualidade? — Eu não escreverei aqui para homens, mas para vocês. Questionem as suas sexualidades, ensinem as adolescentes a fazê-lo também. Eles… eles simplesmente não se importam.

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Tags:, , , , Last modified: 3 de fevereiro de 2024