Written by: Feminismo Raiz

Poor Things: a liberdade sexual é uma farsa ou uma possibilidade?

O que o filme Poor Things nos ensina acerca do olhar masculino sobre a descoberta sexual feminina?

As discussões em torno da liberdade sexual na contemporaneidade estão imersas nas perspectivas neoliberais — sejam elas as de mercantilização da sexualidade feminina (pornografia, sexo pago e etc) ou de um discurso sobre liberação sexual que ignora a falta de direitos sexuais e reprodutivos ou os altos índices de estupro e outras violências sexuais em países do Sul global.

Nesse cenário, como um efeito rebote das décadas de hiper-sexualização e pornificação da cultura, muitos integrantes da Geração Z e Y tendem a se mostrar contrários ao excesso de cenas de sexo ou conotações eróticas em produções audiovisuais, levando indivídios mais velhos a afirmar que a geração atual é “sexualmente conservadora”. Quando, na verdade, seguimos encabeçando índices de consumo de pornografia e criação de conteúdo adulto — seriam os jovens menos desejantes ou a sua sexualidade estaria sendo direcionada a experiências sexuais digitais e de compra, aprofundando os lucros no capitalismo sobre o mercado do sexo?

No centro desse debate, o novo filme do diretor grego Yorgos Lanthimos, Poor Things (2023), se tornou polêmico ao trazer cenas de sexo pouco-conservadoras e protagonizadas por atores A-list como Emma Stone e Mark Ruffalo. O filme, inspirado no livro homônimo de Alasdair Gray, publicado em 1992, conta a história de Bella Baxter — uma jovem grávida e suicida que após ter seu corpo encontrado, tem o cérebro substituído pelo de seu bebê, se tornando uma das criaturas do cientista Godwin Baxter. Apesar da história de seu “nascimento” ser uma clara alusão à descoberta sensorial do mundo, não deixa de ocasionar um desconforto profundo quando se pensa que tendo ainda um cérebro infantil, a personagem se engaja em relações sexuais que começam a partir de um assédio sexual.

Entretanto, o roteiro traz alusões precisas ao processo de desenvolvimento sexual de uma mulher. Afinal, a personagem inicia a sua descoberta a partir do próprio corpo e intuição, sem que houvesse interferência sexual direta de outros. Até que este desenvolvimento foi afetado pelas ações de um homem adulto, que sequestra o seu processo de descoberta sexual e o transforma em algo à imagem e semelhança do que seria o próprio desejo masculino — uma mente infante no corpo de uma jovem mulher, com a qual tudo de se pode fazer.

Apesar da personagem esboçar aspectos positivos, como o fato de decidir casar-se apenas após experimentar outros aspectos do mundo e vivenciar a sua aventura pessoal, por outro lado, se vê cercada em um contexto no qual homens aproveitaram-se e seguem aproveitando-se da sua condição. E, quando começa a aprofundar questões filosóficas e existenciais, subitamente se torna “perigosa” para o homem que inicialmente a havia seduzido. Contudo, apesar desses impasses, o filme não falha ao exibir um retrato fidedigno da condição feminina: o desenvolvimento de uma mulher é sempre perigoso, pois a liberdade que se constrói a torna uma ameaça ao desejo masculino.

O ponto mais ambíguo do filme reside no arco de Paris, quando Bella se torna prostituta em um bordel da cidade. Apesar de algumas sacadas interessantes, como a cafetona que diz “muitos homens preferem o sexo quando sabem que as mulheres não querem fazê-lo” e que “há uma razão pela qual não se pode deixar uma prostituta escolher”, o roteiro peca ao romantizar a prostituição e tirar de foco o fato de que a personagem se encontra naquela situação por ter sido roubada e abandonada em um país diferente. 

Ainda há uma tentativa de atenuação, com uma cena na qual a personagem diz “precisar de sexo e dinheiro” e uma devolutiva sobre “a prostituição ser um caminho para a liberdade financeira de uma mulher”. Além disso, mostra-se uma leve indiferença, como se a personagem houvesse “gostado” do sexo violento com um dos homens do bordel. Há a construção de uma falsa “leveza”, ainda que Bella narre em uma cena estar começando a se sentir “vazia”. Apesar de arcos interessantes e profundidade em torno do amadurecimento feminino e da crítica à civilidade encenada da sociedade ocidental, o filme peca ao cair no mesmo limbo que grande parte dos filmes dirigidos por homens caem quando abordam mulheres e sua descoberta sexual — abuso e “empoderamento” a partir de experiências sexualmente degradantes.
Este filme me ofereceu uma resposta à pergunta retórica que fiz ao reler o clássico de Mary Shelley: “caso Frankenstein fosse um personagem feminino, ele seria estuprado, prostituído e “empoderado” a partir dessas experiências degradantes?” Hoje sei que a resposta é “sim”, pois temos Bella Baxter.

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Tags:, , Last modified: 5 de março de 2024