Written by: Feminismo Raiz

Por que nunca somos exclusivas?

Como o desejo pela exclusividade está relacionado às estratégias de sobrevivência feminina?

Eu inicio este texto trazendo o causo de uma pessoa que conheci. Esse indivíduo, que pertence ao sexo masculino, certa feita convidou uma mulher para ir ao cinema. Porém, como não estava certo de seus “sentimentos”, resolveu convidar outras duas para também acompanhá-lo, assistindo ao mesmo filme, em outras ocasiões. A sua intenção era “sanar” as supostas dúvidas, ainda que não considerasse os sentimentos das mulheres envolvidas. Essa história te fez pensar a respeito de alguém ou te recordou algum causo pessoal?

No escopo das relações afetivas entre mulheres e homens, é usual encontrarmos histórias que se assemelham a essa. Homens que engajam-se em duas ou mais relações paralelas enquanto ainda estão cortejando uma mulher, a fim de “manter o seu leque de possibilidades” aberto e continuar realizando a manutenção de seu monopólio afetivo. Enquanto isso, nós mulheres somos socialmente condicionadas à priorizar a exclusividade dos nossos afetos em relação ao sexo oposto. Os casos de mulheres que isolam-se das famílias ou diminuem o contato com aqueles que pertencem ao seu círculo social durante uma relação, são numerosos.

Ao contrário do que muitos pensam, tal situação não ocorre por conta de diferenças meramente biológicas entre homens e mulheres, mas sim em razão dos ideais e expectativas que são construídos socialmente para ambos os sexos. No cenário patriarcal, homens são socializados para que busquem por mulheres que melhor lhes sirvam e demonstrem proatividade no que tange os cuidados com o relacionamento e com eles. Para encontrar esse tipo de mulher, estão dispostos a nutrir outras tentativas afetivas com as demais, pois detêm o monopólio afetivo.

Em contrapartida, uma das razões pelas quais tantas mulheres heterossexuais visam a exclusividade, é a tentativa de sobrevivência a partir da captura total da atenção daquele pode ora ser um defensor, ora se tornar um agressor. Num mundo hostil à casta sexual feminina, conseguir um “protetor” masculino significa subir alguns degraus na estrutura social. Afinal, como aprendemos através da obra Amar para Sobreviver, a necessidade de tornar-se aprazível e única aos olhos de seus parceiros é uma forma de certificar-se de que eles cumpriram o papel de defendê-las face aos outros homens e de não se tornarem eles mesmos os agressores.

Nunca somos exclusivas, porque se faz necessário que nos sintamos descartáveis para que assim estejamos sempre afoitas e desesperadas pela aprovação social trazida por um relacionamento heterossexual. Se no sistema capitalista a mão de obra excedente serve enquanto estratégia de manutenção dos salários baixos através da lei de oferta e demanda, o mesmo ocorre no cenário afetivo heterossexual. Há muitas mulheres desejando ser amadas por homens e poucos homens desejando amar mulheres. Desta forma, se torna muito fácil levar mais de uma garota ao cinema.

REFERÊNCIAS:


“Willful virgin: Essays in Feminism 1976-1992”
“Amar para Sobreviver: Mulheres e a Síndrome de Estocolmo Social”

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Tags:, , , Last modified: 18 de junho de 2023