Written by: Feminismo Raiz

“Eu era só uma menina, fui molestada”: Por que não cremos na vítima?

“O Outro Lado do Paraíso” e uma análise franca a respeito da violência sexual em Brasil

No dia 20 de fevereiro de 2018, fora ao ar na emissora Rede Globo, um capítulo crucial da telenovela “O Outro Lado do Paraíso”. O desfecho ansiado por milhares de telespectadores a respeito do caso Laura (Bella Piero), personagem a qual fora sexualmente violada por seu padrasto.

Para além de temores relativos à impunidade, um distinto aspecto indignara parcela dos telespectadores: a vítima fora desacreditada pela própria mãe, durante todo o processo.

Comentários tais, possuíram frequência exacerbada:

A datar dos primórdios do processo judicial, Lorena (Sandra Corveloni), não ofertara credibilidade aos relatos da filha. Unindo-se ao marido, defendera-o durante o seguimento do caso. Ademais, personagens tais Nádia (Eliane Giardini), igualmente questionaram a veracidade dos relatos de Laura.

Após um dramático julgamento, Lorena finalmente despertara à revelação ante si: sua filha havia sido estuprada pelo homem que ela própria jurara amar e proteger. Vinícius (Flávio Tolezani) tratava-se de um pedófilo e vitimara, para além da enteada, demais meninas. Posteriormente, tal personagem fora condenado por seus crimes.

Lauras e Lorenas da vida real

Em Brasil, a violência sexual contra menores trata-se de um fato cotidiano e tende a ocorrer no âmago das famílias, tal propõem dados estatísticos:

A cada dia, pelo menos 20 crianças de zero a nove anos de idade são atendidas nos hospitais que integram o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, após terem sido vítimas de violência sexual, de acordo com o Ministério da Saúde. Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do ministério, em 2012, houve 7.592 notificações de casos desse tipo de violência nessa faixa etária, sendo 72,5% entre meninas e 27,5% em meninos. Isso corresponde a 27% de todos os casos de violência registrados pelos hospitais entre crianças e adolescentes. Entre pessoas de 10 a 19 anos de idade, foram 9.919 casos de abuso sexual, ou 27 por dia, no mesmo ano.

FonteO Globo

Esses números mostram que 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. FonteBBC Brasil

A violência sexual trata-se de um crime largamente perpetrado em Brasil, possuindo pilares em uma cultura misógina a qual hipersexualiza meninas desde a mais tenra infância. Ainda que a pedofilia seja classificada tal um transtorno mental, sabe-se que tais ocorrências não possuem raízes tão somente em patologias psiquiátricas. Porém, sob a opressão na qual a sociedade dispõe corpos femininos. Afinal, pesquisas comprovam que a idade média para o primeiro assédio em Brasil, trata-se dos 10 anos de idade, para meninas. Seriam todos os homens assediadores, doentes mentais? Ou frutos saudáveis de uma cultura patriarcal?

No entanto, vivenciamos um paradoxo. Apesar de inúmeras ocorrências de violência sexual serem diariamente presenciadas, o maior contingente de vítimas sequer obtêm credibilidade. Vítimas de violência sexual, sempre manifestam sinais. Contudo, maioritariamente, familiares e responsáveis tão somente abstêm-se do óbvio. Surge o questionamento: Por quê?

O perfil do abusador

Ator Flávio Tolezani*, “Vinícius” em “O Outro Lado do Paraíso”

Contemplem este homem. Reparem minunciosamente na construção imagética a qual transmite… pele branca, corpo esguio, sorriso caloroso e olhar convidativo. Portanto, sejam autênticos e respondam a si próprios: ele possui “aparência de pedófilo”? Acaso, veriam este homem e conceberiam que o tal armazena pornografia infantil e sela encontros soturnos com meninas desavisadas à noite? — Certamente, não.

Por que não?

Seria pelo fato de tal homem sequer representar o estereótipo de pedófilo constituído pela sociedade? — Provavelmente, sim.

Afinal, a aparência do pedófilo assombra o imaginário popular há décadas. Esta figura grotesca, velha e retorcida, encontra-se somente em homens idosos, feios, pobres, dementes, pretos. Contudo, pode-se projetar igualmente naquele caucasiano grisalho o qual assenta-se nos banços das praças. Provavelmente, no jovem antissocial o qual vive confinado em um quarto, a acessar sabe-se os diabos até altas horas em seu laptop. Se há uma faixa etária, provavelmente, adulta ou idosa. Sempre, um desconhecido. Sempre, feio. Sempre, mau. Sempre, indesejável. Deste modo, caracterizam tal figura tão odiada e respectivamente, dualista. Porém, pesquisas recentes exibem-nos sua face verídica:

Sim, pasmem, o perfil do pedófilo brasileiro trata-se deste. Contudo, o perfil das vítimas é objetivo: sexo feminino, entre sete e treze anos.

Um pedófilo pode tratar-se de um rapaz de dezessete anos, um respeitável senhor em seus sessenta, um astro do cinema aos vinte e cinco ou uma babá aos trinta e nove. Eles não possuem uma única face. Não possuem personalidade específica. Podem tratar-se de qualquer um. Figuras furtivas, ocultas nas residências da família tradicional brasileira.

Fantasia-se um perfil inexistente e aguarda-se que todos os pedófilos enquadrem-se neste. Deste modo, quando um indivíduo não “aparenta” ser um pedófilo, simplesmente ignora-se o perigo e confia-se cegamente em tais indivíduos. Recebem acesso às crianças, sem acalorar suspeitas. Tais indivíduos aparentemente inofensivos, podem tratar-se de: pais, tios, primos, amigos da família, padrastos, babás… todos vivendo sob suas próprias máscaras, sob nossos tetos.

“Vocês… vocês que estão me ouvindo. Todos vocês. O perigo pode estar bem próximo, pode estar do seu lado. Pode ser alguém da sua família, alguém que ninguém desconfia. Alguém que você ama, que confia.” — Lorena, “O Outro Lado do Paraíso”.

Faz-se necessário manter-se atento aos mínimos sinais e mudanças comportamentais da criança. Estabelecer diálogos saudáveis, abertos e desenvolver um vínculo afetivo de confiança, ensinando-as a relatar quaisquer abordagens “inusitadas” advindas de outro adulto ou adolescente. Independentemente de quem seja.

Por que ainda é tão complexo crer na vítima?

Bella Piero como “Laura” para a novela “O Outro Lado do Paraíso”.

O silenciamento infantil está impregnado em convenções sociais. Desde a infância, ensinam-nos a vetar as próprias palavras em busca de uma manutenção da cordialidade. Pois, qualquer frase pronunciada, poder-se-ia tratar de um vexame para a família: “Não comentes a respeito da comida de tua tia”, “Não fales a respeito das roupas de teu primo”. — Tratam-se de frases usuais, as quais constantemente direcionam aos infantes.

Ademais, incentivam-nos a sempre violar os limites do corpo. Apesar de determinados contatos físicos serem-nos indesejáveis durante a infância, éramos forçados a mantê-los. Quem jamais fora coagido a beijar a bochecha de um tio quando não desejava fazê-lo? Abraçar aquele amigo do pai o qual sempre fizera-lhe sentir mal?— Praticamente, ninguém.

Deste modo, crescemos. Doutrinados e silenciados. Instruídos a jamais questionar, duvidar ou acusar adultos e indivíduos mais velhos. Coagem-nos a “respeitá-los”. Constantemente, tal “respeito” envolve manter-se silencioso em situações de abuso. Quando uma criança finalmente consegue romper tal ciclo e relatar seu sofrimento à um responsável, geralmente, obtém repressão. Afinal, a sociedade ensina-nos a respeito de como crianças “são fantasiosas”, “possuem imaginação fértil” ou “inventam histórias”. Abraçamos adultos, desprezamos o grito desesperado das crianças.

Diversos internautas julgaram a mãe de Laura. Pois, apesar do óbvio, a própria convencia-se de que a filha estivera enlouquecida. Em constante negação, a personagem não desejava admitir os crimes cometidos pelo marido. O padrasto. O homem.

Quantas “Luanas” vivem em Brasil?

A Rede Globo, em um ato extremamente simbólico, optara por um drama típico, (com ares da obra Lolita, do autor russo Vladimir Nabokov. Livro no qual um homem casa-se com uma mulher, intencionado à estuprar sua filha, Dolores Haze). Quantas mulheres, após tornarem-se mães solteiras, curiosamente, encontraram um homem o qual, exibindo-se tal um “salvador”, casara-se e assumira uma criança a qual não pusera neste mundo? Casos a envolver violência sexual da parte de padrastos, possuem imensa frequência.

Mães, babás, avós, tias, primas, cunhadas, amigas… são mulheres. Historicamente, foram doutrinadas à submeterem-se aos homens. Ainda que inconscientemente, calam-se ante eles. Vivemos em uma sociedade a qual instintivamente protege homens e acusa mulheres. Somos doutrinadas a pô-los em pedestais e sempre agradecê-los por seus atos de “extrema bondade”. Tal sentimento possui potência tão cauterizadora, ao ponto de mães opuserem-se às próprias filhas em detrimento de parceiros pedófilos.

Não deve-se obstruir a responsabilidade das mulheres as quais presenciam violências sexuais e optam por calarem-se. Diversas, fazem-no por temor: de perder benefícios advindos do parceiro, produzir conflitos entre a família, tornar-se chacota, ser humilhada ou expulsa do seio familiar. Além do temor, há fatores extrínsecos, tais a competição feminina. Em casos, a mãe sente-se invejosa a respeito da própria filha por, teoricamente, obter a “atenção” do parceiro, a qual a própria não obtêm. Deste modo, convence-se de que a criança seduz o adulto. Tal fora exibido no longa-metragem “Preciosa”.

A integridade física de uma criança, possui maior valor do que a manutenção de uma suposta “boa aparência” familiar; orgulho, dinheiro ou benefícios. A violência sexual torna-se uma ferida atroz e visceral a qual abre-se não somente em carne, ademais, na alma. Origina imensos transtornos psiquiátricos, tais: Agorafobia, transtorno de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático, depressão e suicídio.

Defendam crianças, acusem agressores! Disque 100! Em tal sociedade, fêmeas crescem extirpadas, violadas, estupradas, sem que jamais obtenham alívio ou justiça. A mulher ao teu lado, no trabalho, escola ou universidade, pode tratar-se de mais uma vítima silenciosa desta corrosiva violência.

No dia 20 de fevereiro de 2018, a Rede Globo de Televisão pusera a família tradicional brasileira para assistir à um abusador a pagar por seus crimes. Quantos “Vinícius”, “Lauras” e “Luanas”, sentaram-se, lado à lado, para assistir? Quantos “Vinícius” ficaram desconcertados ante à cena primordial na qual, implicitamente, seus delitos foram igualmente julgados? Quantas “Lauras” tiveram a alma lavada ao contemplar àquele homem a ser punido por um crime o qual jamais puderam denunciar?

No dia 20 de fevereiro de 2018, a Globo introduzira os dedos na ferida mais visceral e apodrecida da família tradicional brasileira.

A Rede Globo de Televisão, lavou a nossa, a minha alma.


(*) Favor não confundir ator Flávio Tolezani com o personagem Vinícius. A história retratada na telenovela “O Outro Lado do Paraíso” é fictícia e não mantém compromisso com a realidade.

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Tags:, , , Last modified: 23 de agosto de 2021