Written by: Feminismo Negro

A Pequena Sereia Negra

O que a escalação de Halle Bailey para representar a pequena sereia nos diz sobre os papéis ocupados por mulheres negras?

Nas últimas semanas, a divulgação do trailer do live action de The Little Mermaid (A Pequena Sereia) experimentou imensa repercussão, tendo sido alvo de inúmeros comentários racistas e uma correntes de dislikes no vídeo original disponibilizado pela Disney. Não coincidentemente, na última década a Indústria Cultural tem assimilado a prática de realizar releituras de personagens originalmente brancos em versões racializadas, em especial, negras. Tal movimento, intenta reverter a lógica do branqueamento no entretenimento, que ocorre quando personagens racializados são interpretados por atores brancos a fim de contribuir para o apagamento ou atenuação étnica na história.

No cenário da empresa em questão, apesar de ter sido acusada durante anos de propagar o racismo através de suas produções e recentemente de destinar fundos a políticos da direita anti-minorias, o império do entretenimento juvenil tem desejado valer-se das benesses do “empoderamento”. Afinal, em uma sociedade na qual negras e negros foram sistematicamente excluídos das construções simbólicas positivas, a classe tornou-se sedenta por representações das suas identidades culturais e fisionomias a partir de perspectivas agradáveis dentro da Indústria Cultural. 

Se faz necessário saber que a exclusão não ocorre de modo desinteressado, mas sim no intuito de desenvolver uma nova demanda de mercado. Pois, em uma sociedade na qual negras e negros jamais veem-se, torna-se mais simples vender-lhes quaisquer imagens positivas, ainda que essas sejam construídas sob medida para jamais transpassar os limites impostos pela própria Indústria. Por exemplo, circulam na Internet relatos de que o ator latino Christian Navarro inscreveu-se nas audições para o Príncipe Eric, mas apesar de seu desempenho, não foi escolhido pois a empresa desejava “alguém mais europeu”.

Além das questões apresentadas, se faz interessante conceber igualmente o fato de que, a história de Ariel, apesar de ter sido escrita por um homem bissexual, possui um forte cunho professoral em relação à feminilidade. A personagem abdica de si em prol de uma relação heterossexual, além de mais uma vez haver a representação da hostilidade horizontal como praxe — a mensagem inconsciente da história em muito apela àquilo que encontramos nas obras “Amar Para Sobreviver: Mulheres e a Síndrome de Estocolmo Social” e “O Que é a Hostilidade Horizontal”. Afinal, percebe-se que o homem possui uma construção imagética fabulosa e heroica, enquanto as outras personagens femininas são fúteis, invejosas ou vilanescas.

Ao longo dos séculos, mulheres negras foram excluídas dos padrões da feminilidade colonial, que por sua vez encontram ecos na estética eurocêntrica. Por conta disso, ativistas como a norte-americana Sojourner Truth conceberam discursos como o célebre “E não sou eu uma mulher?”. Pois, o ideal de feminilidade submissa, inocente, romântica, matrimonial e infantil, pende àquilo que se espera socialmente de mulheres brancas e de compleição mais clara, sendo destinada às mulheres negras uma versão afromisógina da própria feminilidade, que nos descreve como hiperssexuais, ignorantes, boas trabalhadoras informais, “fortes” e mais próximas daquilo que se espera do masculino, pois não somos “mulheres completas”.

Desta forma, mulheres negras jamais foram cogitadas enquanto agentes principais nos ritos da feminilidade colonial, como o matrimônio e a constituição da família nuclear burguesa. Por conta disso, inúmeras mulheres pretas crescem a sonhar com os ditos contos de fadas, romantizando a feminilidade, a heterossexualidade e o casamento, justamente por lhes terem sido negados ao longo da história colonial. Assim, nos desenvolvemos a crer que mulheres brancas possuem o tão sonhado “troféu” que não possuímos, quando em verdade, o matrimônio e a feminilidade são ferramentas de opressão dentro da sociedade patriarcal das quais muitas mulheres brancas já conceituam se libertar. Porém, como essas foram negadas às mulheres negras, nos tornamos o “exército da reserva” dessas estruturas. Pois, quando as mulheres da etnia dominante finalmente percebem a armadilha patriarcal da heterossexualidade compulsória, lá estão as mulheres negras, disponíveis por jamais terem sequer experimentado a ocupação plena desse espaço social.

A “Ariel negra” acena para todas essas questões psicológicas e sociais no escopo da estrutura, contribuindo para o fomento desse imaginário nas novas gerações de meninas e mulheres negras. Afinal, sonhar em se tornar uma princesa é útil em uma sociedade que deseja mulheres ocupando espaços de forma rotatória ao invés de conquistarem a sua emancipação. As antigas produções que nos ensinaram o que é ser uma mulher sob uma perspectiva estereotipada e patriarcal, não perdem a sua importância independentemente do quão progressistas nos tornemos. Afinal, basta repagina-las e se tornam aceitáveis mais uma vez.

Além das questões citadas, há a controvérsia de Halle Bailey ser uma das primeiras atrizes com um passado sexualizado a ser contratada para representar uma personagem principal infantil em um filme da Disney. A artista, apesar de extremamente jovem, foi sexualizada em produções desde a adolescência, quando ainda fazia parte de uma dupla musical com a sua irmã.

No final, lhes questiono: no jogo da representatividade comercial, quem vence de fato… somos nós?

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Tags:, , , , Last modified: 19 de outubro de 2022