Written by: Feminismo Raiz

O Príncipe, na verdade, é uma Princesa

Entenda como você passou a vida inteira desejando mulheres sem saber

Durante o processo de desenvolvimento, mulheres são expostas aos produtos culturais voltados às ideações do amor romântico heterossexual. Através dos seriados animados, filmes infanto-juvenis, novelas e também das interações sociais a nível religioso, familiar e escolar, as meninas capturam os sentidos do que seria o amor e quais seriam as suas possibilidades e implicações. Nesse contexto, em geral vigora a valorização de uma narrativa que segue o script de herói — heroína — rival, conduzindo-as à crença de que, no cenário afetivo, sempre haverá de ocorrer rivalidade entre duas mulheres em prol do prêmio final: ser escolhida pelo herói. 

Nas histórias, os personagens masculinos têm êxito ao salvarem o mundo, se tornarem grandes governantes ou manterem equilibrados os pilares que sustentam a sua comunidade. Contudo, o êxito feminino está relacionado à família, ao relacionamento e às relações a nível afetivo — com modificações muito recentes em decorrência das reivindicações femininas. Quando abordamos gêneros literários ou audiovisuais que são direcionados às mulheres, um dos mais proeminentes são as comédias românticas. Segundo conclusões do estudo norte-americano “I did it Because I Never Stopped to Love You”, publicado na revista Communication Research, ser uma consumidora de comédias românticas tende a tornar mulheres mais propensas a tolerar assédios. 

Personagens King Geoge e Queen Charlotte para a série “Queen Charlotte“, Netflix.

Afinal, além de uma massiva romantização de fenômenos fundamentados na opressão das mulheres, como a perseguição, a insistência masculina e entre outros, também somos apresentadas a outro fator: o suposto homem ideal. Sim, ele. Aquele que permeia os sonhos femininos desde a primeira vez em que assistimos a filmes como, “A Pequena Sereia” ou “A Princesa e o Sapo”. Aquele que será afetuoso, bonito, sensível, atencioso e a completa redenção de todas as questões complexas que nos afligem, aquele que permanece. Quando crescemos, essa idealização se desloca para personagens como os galãs da série Bridgerton, ou o Padre de Fleabag. Mas sempre permanece.

Neste momento, se faz essencial questionar: o que é comum a todos esses personagens, esses que se tornam ideais e passam a ser idolatrados ou a permear os sonhos de inúmeras meninas e mulheres heterossexuais? Foram todos escritos por outras mulheres. Todos eles possuem aspectos atribuídos socialmente às mulheres, diferenciando-se assim dos homens da vida real. Tal fenômeno ocorre, porque desde tempos imemoriais, as polaridades foram atribuídas ao “feminino” e ao “masculino” a partir de delimitações sociais e simbólicas. Por exemplo, a expansão (desde a apropriação masculina do simbólico), é considerada “masculina” e a reclusão, o “olhar para dentro” e afins, associado àquilo que considera-se “feminino”.

Através de validações simbólicas, pouco a pouco foi-se construindo o discurso de que mulheres são mais interiorizadas, sensíveis, afetuosas e voltadas para dentro. Dessa forma, mesmo características socialmente positivas como: diplomacia, compreensão do outro, atenção vigilante e etc, foram incrementadas na socialização feminina. Contribuindo assim para a subalternização da mulher, pois aprende-se no processo de socialização que tais características devem ser utilizadas a fim de beneficiar os homens. Um exemplo interessante se encontra na própria religião cristã, que designa a mulher como “braço direito do homem”, sua companheira que por si tudo deve fazer, pendendo assim para uma construção antagônica à “brutalidade” masculina sobre o mundo.

Desse modo, construir uma figura masculina idealizada sem pender àquilo que foi socialmente alocado como “feminino”, torna-se impossível. Pois, a masculinidade se fundamenta em seu completo oposto, na dominância, violência, dissimulação e sobrepujança em relação ao outro. Então, como persuadir mulheres a se relacionarem com homens, se o discurso sobre os mesmos é brutal? A resolução lógica foi, justamente, transformá-los em mulheres em corpos de homens. Transformar assim o ideal feminino num anseio incessante por suas próprias características, mas configurado na carne de uma pessoa do sexo masculino.

O anseio feminino é, em certa medida, encontrar um parceiro que lhe dê exatamente o que recebe, o anseio da mulher é encontrar outra mulher — dentro do corpo de um homem. Porque a mulher, socialmente, foi construída para ser a parceira ideal, a doadora. Enquanto os homens, em sua socialização, foram construídos para que sejam eternos receptores, sempre vivendo às custas do trabalho afetivo, moral, doméstico e sexual de outrem. Despertamos quando percebemos que ao avesso do que nos foi ensinado, mulheres não são receptoras ou passivas, mas sim constantemente ativas na manutenção das relações e em seu manejo. Somos as doadoras jamais postas no espaço de receptoras.

O desejo secreto e dissidente de toda mulher é receber.


Como eu digo, após anos de estudo nas teorias feministas: “no fundo, todo mundo quer uma esposa, não um marido.”

Referências:

“Amar para Sobreviver: Mulheres e a Síndrome de Estocolmo Social”, Dee. L. R. Graham

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Tags:, , , Last modified: 21 de junho de 2023