Written by: Feminismo Raiz Sem categoria

Gênero, feminilidade e o racismo

O que o caso da cirurgia de afirmação de gênero de Linn da Quebrada diz sobre o racismo nos padrões da feminilidade?

No primeiro momento, se faz necessário compreender que não cabe uma crítica à Lina. Afinal, pessoas racializadas são ensinadas a abominar os seus traços através da violência psicológica. Tanto mulheres como homens negros, crescem a possuir fortes questões com a sua aparência física em uma sociedade racialmente estratificada. Contudo, mulheres sofrem com uma repressão mais acentuada. Pois, além do racismo, vigora a misoginia. Criando assim, a interseção que intitulamos “afromisoginia”. Desde o período colonial, mulheres negras foram alocadas em um espaço de “não-mulheridade”, tendo seus traços africanos subsaarianos e sua ausência de feminilização europeia utilizados como subterfúgio para que não fossem consideradas mulheres, ainda que pertencessem à classe feminina.

Não por coincidência, em 1851 a ativista social e abolicionista norte-americana Sojourner Truth, recitou o famoso discurso: “Não sou eu uma mulher?”. Afinal, os padrões estéticos e comportamentais da feminilidade foram pensados, no contexto
globalizado, na perspectiva eurocêntrica. Todas as fêmeas que não se enquadrassem, não seriam consideradas mulheres completas. Porque a mulheridade seria, sobretudo, comportamental e estética. Neste ponto, podemos até mesmo pensar na máxima de
Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”. Mulheres são forjadas.

Ou seja, mulheres não são “naturais”. A mulher não é o estado natural das fêmeas
da espécie humana, somos assim percebidas através da socialização e das classificações que nos são impostas. (E, para quem aprecia criar boatos e dissolução, gostaria de reafirmar que sou uma pessoa que corrobora com partes muito caras do anti-especismo e compreendo a natureza mamífera e consequentemente animal do ser humano) nesse contexto, mulheres que se recusem a encaixar-se naquilo que está posto como a modulação esperada e “original”, são excluídas ou sofrem sanções. Durante parte do discurso, eu mesma compartilhei que já fui apedrejada na adolescência por terem pensado que eu “não era uma mulher” e estava a utilizar roupas “femininas”.


Ao longo das décadas, através do feminismo negro e outras movimentações, muitas mulheres tentaram abolir ou, no mínimo, apontar a face racista dos padróes da feminilidade. E, de fato, havíamos conseguido algum progresso entre os
“progressistas”, até que começou a parecer bem questionar: “se mulheres negras podem ser mulheres, por que outras também não podem o ser?”, “se mulheres negras podem competir com mulheres, por que pessoas de sexos opostos não o podem?”. Mas uma vez, voltamos a ser masculinizadas e animalizadas, retornando ao espaço da
“‘não-mulher” e sofrendo com o tokenismo. Afinal, dentro dessas suposições, já reside a máxima implícita: “mulheres negras NÃO SÃO mulheres como as outras”. Quem seria A mulher, afinal?


A mulher, como ideal, permanece a ser a feminilidade estética e comportamental
eurocêntrica. A mulher continua a ser a passividade, as maquiagens, os sapatos, a
“amabilidade”, a ignorância, a fraqueza e, sobretudo, os traços finos. Por conta disso, não nos surpreende que as novas cirurgias de reafirmação de gênero se inspirem no
padrão eurocêntrico em suas modulações e raspagens. Lina não poderia ser quem é
sem estar dentro do padrão da feminilidade estética? Mulheres negras precisam de
cirurgias de reafirmação de gênero também, já que nunca foram mulheres “completas”? Eu preciso, já que fui apedrejada por não “aparentar” ser uma mulher? Negras não são mulheres? Deixo-lhes todos esses questionamentos.

E além disso, sabemos que o público alvo dessas cirurgias de afirmação, que é a população trans, é caracterizada no Brasil por ser em boa parte racializada e pobre. Lina possui condições financeiras para alteras seus traços e tentar, à sua maneira, sobreviver. E as demais pessoas trans negras? E as demais travestis? Me parece deveras chocante que a própria comunidade não perceba a grande problemática que reside em mais uma forma encontrada pela indústria para mutilar e enquadrar pessoas consideradas “fora do padrão”. O discurso não era, “somos o que
somos apesar dos nossos corpos”? Se não sabemos o que é uma mulher, por que pessoas precisariam se “feminilizar” para reafirmar o seu gênero? As mazelas que levam pessoas negras ou demais indivíduos a desejaram correr para esses padrões, precisam ser discutidas e tratadas com o respeito e seriedade que devem ter. Estamos adoecendo há séculos. Entretanto, há quem lucre imenso com as nossas doenças enquanto nos digladiamos entre nós.

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Tags:, , , Last modified: 10 de agosto de 2022